Clube dos Brutos

Diversão não é nada sem brutalidade.

Apr

23

Do Playground do Niemeyer

By Thiago

Já tinha algum tempo que eu não escrevia sobre algo sério, então resolvi tomar esse espaço bruto pra esse fim. Duas motivações diuturnamente me assolavam para que eu elaborasse minhas idéias em caneta e papel. Digo. Teclado e monitor: a situação do Flamengo e a situação de Brasília. A fim de não deixar a lembrança do aniversário da Capital sumir de vez, tal qual sumiu a lembrança de certos dólares em certas cuecas, eu resolvi começar pelo segundo tema e deixar pra falar do Rubro-Negro depois do jogo contra o Corinthians.

Nasci e fui criado neste quadradinho. Desde criança aprendi a gostar de pastel com caldo de cana da rodoviária e das músicas do Legião. Me acostumei com a enorme quantidade de lojas, mercados, praças, monumentos e demais parafernálias que levam as iniciais JK e muitos dos meus fins de semana foram passados no Lago Paranoá. Ademais, aprendi que embora se situem no Estado do Goiás, Caldas Novas e Pirinópolis são quintais de Brasília.

Em se tratando de política, um sobrenome sempre se destacava por aqui: Roriz. Os pobres o endeusavam. Os principais jornais davam relevo às suas obras e praticamente não se via críticas ao governo dele na televisão. Quando alguma voz destoava, era a de algum professor fominha, algum aluno baderneiro da UnB ou, quando muito, de um pé-sujo de algum sindicato. No mais, o Distrito Federal era um oásis de prosperidade, honestidade e oportunidades cercado por favelas goianas habitadas por híbridos mal alimentados.

Até os quinze anos, mais ou menos, obviamente nenhum aspecto da política local tinha me chamado atenção. Eu tava mais preocupado em mudar de faixa no judô, em ter algum dinheiro sobrando pra impressionar a minha namoradinha e em não perder nenhum episódio do Pokémon. Mas um dia, enquanto eu voltava pra casa, percebi uma fila gigantesca de pessoas próximas a um colégio. As pessoas que saiam do colégio carregavam carrinhos-de-mão abastecidos com uma cesta-básica. Essas pessoas eram evidentemente muito pobres. As roupas denunciavam. Muitas camisetas denunciavam alguns dos responsáveis por essa pobreza. Camisetas de campanha. Camisetas dadas em comício. Um nome ou só um sobrenome, um slogan, um número e um partido.

Agora mais velho, com alguns vícios, com o fígado experimentado no álcool e a alma experimentada no pecado é que eu pude ter uma idéia mais ampla do que significavam aquelas filas, aquelas cestas-básicas, aquelas camisetas. Onde elas se encaixavam no todo que forma esse quadradinho exposto pro restante da nação em cenas de orações criminosas, dinheiro em bolsas e meias, políticos presos e panetones.

Na via que dá acesso às cidades-satélites (bairros afastados da capital) de Samambaia, Ceilândia e Taguatinga existe um rancho em que o proprietário (vou chamá-lo de seu Almir) vende entre alguns cacarecos, que ele chama de artesanato, o melhor e mais barato caldo de cana do mundo. Um copo de 500ml custa só R$ 0,50. Seu Almir tem penduradas nas paredes de seu negócio fotos com pessoas famosas e recortes antigos de jornais. Um deles um dia me chamou atenção. Era um recorte assinado por um ministro e se tratava de um plano para o desenvolvimento das cidades-satélites do DF. Encabulado com a pobreza da cidade em que eu vivia, perguntei ao seu Almir por que as cidades não evoluiam, como prometia o panfleto.

-Moleque. Fora do Plano Piloto tudo é um grande dormitório.

Juntei o que eu ouvi do seu Almir com as cenas que eu presenciava e com o que eu aprendia dia-a-dia sobre quem era quem no planalto e como é que se sobrevivia por aqui. Conclui que o meu quadradinho era um imenso curral eleitoral. Que o senhor Joaquim Roriz em tempos remotos tinha sido pescado de algum buraco do Goiás para ser governador biônico do Distrito Federal e, para se manter no poder, inchou Brasília com promessas de lotes. Como nem toda a massa paupérrima, mal-formada acadêmicamente e faminta conseguiu manter-se com os subempregos no Plano Piloto, a distribuição de cestas básicas constituidas de produtos vindos das fazendas do governador e pagas com dinheiro do contribuinte foi efetuada com sagacidade e cumpriu a finalidade de fidelizar a massa ignara. Com o passar dos anos, essas cidades-dormitório cresceram, sofreram com a criminalidade e fizeram (fazem) sofrer o centro da capital, que não conseguiu se manter protegido pelo domo de vidro representado por cercas eletrificadas e circuitos fechados de Tv.

O senhor José Roberto Arruda, personagem mais central dos últimos escândalos envolvendo a cidade, provou que nem sempre um diploma universitário mais decente e um discurso mais gramaticalmente correto são capazes de demonstrar a esperteza de um cidadão. Roriz sempre falou errado, como pouca concordância verbal, talvez propositalmente para que o rebanho o pudesse entender. Administrou Brasília da mesma maneira que administra suas fazendas e lucrou muito com isso. Já o senhor Arruda prometeu uma assepsia na cidade, e de uma forma ou de outra, ele cumpriu a promessa. Eu não falo somente da forma negativa, como se ele houvesse apenas limpado os cofres públicos. A cidade realmente ficou mais limpa, projetos há muitos parados, como o Metrô, foram agilizados. O transporte irregular das vans foi extinto e um outro de melhor qualidade, dos micro-onibus, foi implantado dentre outros feitos.

O passo em falso do senhor Arruda foi sua inépcia em esconder as falcatruas que herdou do senhor Roriz. Este último, salvo se for impedido por alguma investigação que o tire do pleito, deve se tornar o governador do Distrito Federal pela quinta vez. A geração da cesta básica ainda é forte o suficiente para lhe dar mais um mandato e a geração que o repugna e que poderia promover uma mudança está mais preocupada com o Campeonato Brasileiro ou com o novo filme do vampirinho que não bebe sangue.

Em função destas constatações eu acompanho nauseado, como que herdando uma vergonha que não deveria ser minha, as anunciadas comemorações do cinquentenário de Brasília. Uma festa pobre em recursos e em significados.  Indigna da imagem do corajoso Juscelino e de todos os que vieram erguer essa cidade do nada.

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