Clube dos Brutos

Diversão não é nada sem brutalidade.

Dec

22

Uma piada para Danilo Gentili

By Thiago

Eu confesso que estranhei quando vi o primeiro nick de msn que dizia “Fodam-se o Rio e as Olimpíadas“. Não fazia sentido pra mim. Me parecia um bom ponto de convergência entre a elite branca carioca, com o seu Leblon e sua Copacabana e alguma ação visceralmente patrocinada pelo governo do Sapo Barbudo. De repente começaram a pipocar jovens adultos contrários ao evento. O discurso não mudava muito de um playboy para outro:

-”vai ter roubalheira”.

-”Eles vão desviar as verbas”.

-”Os gringos vão ter mais um motivo pra fazer piada com a gente”.

-”O Brasil não tem condição de fazer esse tipo de coisa. Vamo dar vexame”.

Eu tenho que ser honesto. Eu vi o vídeo do Rio e acho que o Fernando Meirelles fez um puta de um trabalho. Eu tive vontade de chorar. Mas essa vontade de chorar começou alguns minutos antes, quando o Sapo Barbudo fez o discurso. Nunca antes eu tinha visto alguém falar com tanta paixão sobre essa terra e sobre esse povo. Me senti irmanado com cada sujeito nesse pedaço do planeta. Do gaúcho nos pampas ao ribeirinho amazonense. Eu conseguia vê-los. Poderia dar-lhes nomes. Cogitei depois que, pelo fato de Brasília abrigar pessoas de todo o Brasil, essa sensação não seria assim tão insólita pra mim. Mas era. Não foi pelo fato de eu estar acostumado a tratar com pessoas dos mais variados buracos desse país que eu me senti daquela forma. Foi a fala daquele homem que eliciava esse sentimento em mim. Quis com todas as forças que o Rio ganhasse aquele pleito, mesmo que eu mantivesse a minha postura de continuar a evitar o Rio de Janeiro que eu conheço pelas novelas da Tv Globo.

Mas desde aquela época eu vi brasileiros que faziam cara amarrada para o feito do Sapo Barbudo. Sim, porque não foi o vídeo do Meirelles, não foi o Pelé e não foi nem mesmo o Rio que ganhou aquela eleição. Foi o cabeça-chata de Garanhuns. Com o tempo eu fui percebendo que essa era a principal razão para que essas pessoas fizessem cara feia para as Olímpiadas em terra brasilis. As críticas não eram para o Rio ou para os Jogos. As críticas eram para o Lula.

O interessante é que quando se tira um tempo mínimo para se debruçar sobre as questões políticas, a gente acaba percebendo que alguns dos mais eficazes inimigos de alguém não necessariamente estão declaradamente na trincheira oposta.  Eles ficam no meio-de-campo, como quem não tá nem aí. São os isentos. Os que não tem cor.

Foi assim que eu comecei pelos mais óbvios. Primeiro veio o Jornal Nacional e a Globo como um todo. Mas isso é chover no molhado. O Brizola e o cara que fez o Cidadão Kane brasileiro já sabiam disso antes de eu nascer. Depois vieram os jornais e revistas. Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Veja, Época. Agora eu cheguei naqueles que são responsáveis por “fazer a cabeça da garotada”. Entre os ídolos da juventude brasileira atual, eu achei o Danilo Gentili, do Caiga Quien Caiga tupiniquim.

Antes de qualquer coisa, eu tenho que dizer que admirava esse cara. Gostava do humor dele, achava inteligente e também sabia que ele era um puta desenhista. Por muito pouco não consegui assistir o show de Stand-Up dele aqui em Brasília, mas logo que pude, fui xeretar na internet o que desse da aparição do garoto por estas bandas. A admiração me fez, além de assistir os vídeos dele no Youtube, adicionar o blog dele na minha lista de favoritos. E foi justamente lendo o diarinho eletrônico que eu pude ter uma idéia maior dos valores do repórter inexperiente.

O Danilo, comentando sobre a piadinha do Robin Willians que tinha alguma coisa a ver com strippers e pó, insinuou que foi pouco. Que o Robin Willians poderia e deveria ter achincalhado mais. Também falou alguma coisa sobre nós não merecermos Olimpíadas ou Copa do Mundo aqui por que o Brasil não tinha feito um dever de casa passado pelo Tio Sam ou pelo Roberto Marinho. Enfim, o Danilo Gentili recomendou que nós agradecessemos ao Robin Willians por ele ter feito SÓ uma piada.

Já tinha dito antes que não ia com a cara do CQC-MOR Marcelo Tas por que ele é um vendido. Vive na FIESP atrás de patrocínio. E pra sair de lá com a boa verba no bolso, não hesita em puxar o saco dos mauricinhos filhos de empresário que vagam por lá.  Agora me aparece o Danilo Gentili mostrando que aprendeu muito com o colega careca.

Honestamente, entre a opinião que aparenta a crueza da sensatez do senhor Gentili em relaçao à política e as bizarras intervenções da Sabrina Sato, do velado concorrente do CQC, o Pânico na Tv, eu fico com a japonesa. Ela me parece mais imparcial na hora de fazer suas pilhérias. Se por um lado ela oferece uma sunga vermelha ao Suplicy, não pensa duas vezes em fazer graça com a pança panetonística do Heráclito Fortes ou em dar suco de maracujá pro Collor acalmar os nervos. O Gentili e o Tas não. Eles são da turma de jovens esclarecidos que faz piada com o grau de instrução do Lula ou com os seus nove dedos. Eles fuçam a vida do Zé  Dirceu e dizem que o mensalão é obra apenas do PT. Não existe roubalheira no Rio Grande do Sul, da “Lady” Yeda Crusius e os alagamentos no Estado de São Paulo são obra de São Pedro e dos prefeitos incompetentes. Para o Gentili e o Tas, o Zé Serra é tio.

O Gentili e o Tas são retratos de uma geração que se esforça para ser cool, mas adotam ainda repertórios comportamentais daqueles que participaram da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Daqueles que defendem uma independência ad infinitum da economia, dos valores e da cultura americana. Daqueles que iam achar fodástico se a Petrobrás mudasse de nome e virasse Petrobrax e que não se importariam em mudar de vez a grafia do nome do país para Brazil (não por acaso o Correio Braziliense nunca se chamaria Correio Brasiliense). São daqueles que se orgulham de ter sobrenome italiano e não um chucro Silva ou Santos. Daqueles que quando tiverem arrecadado bastante ou quando estiverem no ocaso irreversível, vão se mudar para algum buraco americano ou inglês e vão mentir quando perguntarem a nacionalidade deles.

Ainda bem que eu perdi o Stand-Up do Sr. Gentili. Espero não me arrepender no futuro de não ter perdido o Stand-Up do Rafinha Bastos, último humorista do CQC do qual eu ainda acho graça.

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